Friday, September 29, 2006

Bia

As coisas simplesmente acontecem, as vezes até nos atropelando. Não temos o mínimo controle, mas podemos fazer o melhor possível.
No caso da Bia, eu não fiz.
Acordei essa manhã e minha mãe me disse: -Bom dia......Thaís...... a Bia morreu. – engasguei, meu estômago começou a doer.
Meu dia nem havia começado e já estava acabado. Demorou um pouco até que eu pudesse acreditar, conceber, pra depois poder aceitar, pra depois poder me despedir, pra depois conseguir chorar. E o choro ainda está um pouco entalado. Ainda não consegui ir lá no fundo, vai ser difícil olhar pras 3 e não ver a Bia. Ainda não comi nada. Tomei um gole de leite e quase vomitei.
Eu me lembro de quando ela nasceu, de quando dormia na minha mão, penso em como ela era carente e no quanto fui ausente. Não tem mais volta. Ela se foi e eu não fiz o melhor por ela. Logo eu, que amo os animais, que gosto mais de cachorros do que de gente.
A Bia era magrinha, pequena, malhada, vira-latas, agitada demais, descontrolada, meiga, carinhosa, e sempre carente. Ela sempre me arranhava, estabanada, querendo ser agradada. Ela era linda e agora eu só penso nos seus olhinhos inocentes.
Talvez ela tenha sido envenenada, ou seja, assassinada, mas dizem que meus vizinhos não seriam capazes disso. Eu acho que as pessoas são capazes de qualquer coisa. É justamente essa a razão de eu preferir os animais, e se isso tiver acontecido, mais uma vez se vai um animal puro e inocente pelas mãos de um ser humano podre e sádico.
A gente vai sendo empurrado pelas coisas, pela correria, pelo trabalho, a gente vai se acostumando com esse ritmo alucinado e deixa de lado coisas tão mais importantes.
Queria ter passado mais tempo com a Bia. Ela precisava de mim. Queria não ter precisado que ela morresse pra perceber isso.
Queria poder prometer que vou dar mais atenção pra Lena, pra July e pra Kate não só nas próximas duas semanas, ou até que a correria me atropele de novo e eu me esqueça mais uma vez até a próxima morte.

Monday, September 25, 2006

Se (Hermógenes)

Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda
,Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos, Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.